quarta-feira, 5 de julho de 2017

O menino de 11 anos e a tragédia do Sarriá

Passei o dia inteiro pensando no que escrever sobre aquela primeira grande tragédia que vivi no futebol, a derrota da Seleção Brasileira na Copa da Itália, em 1982. Foi a primeira vez que sofri daquela maneira por causa do futebol. Para se ter uma ideia, até aquele 05 de Julho de 1982, eu já tinha visto cerca de 50 jogos do meu Fluminense e nunca tinha visto uma derrota. 

Valdir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luisinho e Junior. Agachados: Sócrates, Cerezo, Serginho, Zico e Eder
Cada vez que ligava o computador para tentar escrever algo, me vinham a mente as memórias daquele dia. Aos 11 anos de idade, me lembro perfeitamente da camisa do Zico rasgada pelo Gentile, do passe errado do Cerezo, do gol do Doutor, do golaço do Falcão, do Junior dando condição ao Rossi, da defesa do Zoff...

Aquele time produziu sonhos. Todos sabíamos a escalação de cor: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho e Eder. Muitos reclamavam de alguns jogadores, Jô Soares pedia ponta em seu programa semanal. Eu mesmo queria Edinho no lugar do Luisinho (puro clubismo de minha parte) e Dinamite no do Serginho.

Morava em Tomás Coelho naquele distante 1982 e me acostumei a ir pra rua, no Condomínio de dezenas de blocos, atrás do Bloco da Copa que, a cada vitória, rufava o samba nas subidas e descidas do Conjunto do BNH onde passei a primeira metade da minha adolescência. Voa, Canarinho! Voa! Todos cantavam, sorriam e vibravam com a certeza absoluta que aquele time que encantava o mundo seria campeão. 

Foi assim na virada dos golaços contra a URSS, nas goleadas (também com golaços) contra a Nova Zelândia e Escócia e também contra a super rival Argentina. A cada gol explodia o foguetório e, comemorando sozinho, eu olhava pela janela e via os outros apartamentos do outro bloco com pessoas se abraçando, pulando e gritando.

Não tinha como dar errado! O pachequismo (criado pela Gillette) começava ali. Tudo que tinha que dar errado na minha curta vida (separação dos meus pais 2 anos antes, mudança do meu pai para Fortaleza, redução da qualidade de vida) já tinha dado. Aquela seleção me daria a alegria do título na Espanha.

Naquele dia, estava na casa de uma tia querida e fomos, eu, ela, meu tio e meu primo (a quem considero irmão) para casa de uns amigos. Faríamos um churrasco, os adultos beberiam suas cervejas (que hoje divido com eles) e nós os nossos refrigerantes. Aproveitamos, eu, meu primo e nosso amigo Alexandre, para jogarmos um pouco de vôlei onde aprendi a sacar por cima, o que era um sonho que me poria alguns degraus acima na escola.

Na hora do jogo, a alegria era contagiante. As famílias reunidas em uma sala estilo varandão, a TV de válvula ligada e a certeza de que sairíamos dali para a semi-final. A certeza era tanta que desconsideramos o timaço da Itália. Se não era mágica como a Seleção Brasileira, a Itália tinha craques como Zoff, Scirea, Gentile, Cabrini, Antognoni, Bruno Conti, Altobelli, Paolo Rossi... 
Paolo Rossi.... 
A Itália quase fora eliminada na primeira fase com 3 empates em 3 jogos. Só se classificou porque fez 2 gols em 3 jogos e Camarões apenas 1. Então não seria páreo para nós.

Mas o futebol é a melhor invenção do homem porque não é previsível, o melhor nem sempre ganha. Naquele dia, para mim, o futebol se tornara a invenção do capiroto. A Itália abriu o placar, empatamos com o Doutor, levamos o 2x1 em uma bola atravessada pelo Cerezo e fomos para o intervalo. Durante os 15 minutos de descanso dos jogadores, tudo mudou entre nós. A tensão e a cara de incredulidade era geral. 

O gol antológico, da classificação que não veio
Mas Pacheco raiz não se abate em um intervalo. Já tínhamos virado contra a URSS, viraríamos contra a Itália. O empate nos bastava. Veio o segundo tempo e ... FALCÃO! Que golaço! Que jogada de um futebol que, 35 anos depois, é moderno: o lateral esquerdo deriva para  a meia, toca no volante na entrada da área, o outro volante faz a ultrapassagem levando 3 na marcação e o chute forte, indefensável para o monstro Dino Zoff. Aqueles "heróis" não nos fariam sofrer evidentemente.

Mas nos esquecemos dos "vilões". Poucos minutos depois, em um escanteio, novamente Paolo Rossi...hattrick...desespero. Como vilões normalmente têm uma dose grande de crueldade, não era Rossi o único vilão da história. Éder prepara para bater uma falta, cobra com perfeição, Oscar livre cabeceia como manda o figurino e Zoff, o outro "vilão", defende em cima da linha. Cheguei a comemorar, meu primo mais velho começou a chorar. Olhei a minha volta e me sentia em um velório. Nosso sonho havia morrido, assassinado por "vilões" cruéis da máfia siciliana. Desci para o quintal para chorar sozinho. Não queria que ninguém me visse daquele jeito. 

Até hoje espero o Oscar cabecear essa bola pra dentro do gol
Aquele garoto de 11 anos não esqueceu até hoje, aos 46, aquela tragédia. O trauma ficou. Mas foi amenizado por outras tragédias futebolísticas como a semi-final do Brasileiro de 1995 ou a final da Libertadores de 2008 (essa, hoje, muito mais doída). Mas, sem nenhuma dúvida, aquele time ficou no imaginário de como o futebol deve ser jogado e também ficou como vítima de uma praga que afetara a seleção brasileira de 50, a húngara de 54 e a holandesa de 1974. Uma praga que impediu 4 das 5 seleções mais talentosas da História de ganhar a Copa do Mundo.

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